sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Beyond Words II

Londres,


7de Janeiro, 2011

Ao sétimo dia do ano – e rejeito qualquer sentido esotérico ou religioso associado - as memórias dum outro que mal terminou afluem a cada instante do que ainda mal começou. Os momentos ímpares num ano par. Outros e igualmente intensos momentos ímpares aguardam-se num ano ímpar.

Não são cunhadas de melancolia ou qualquer outro sentimento que se lhe assemelhe. Não. A verdade, e em igualdade a outro momento de partida da minha vida, também este é marcado por fragmentos de tempo, lugar e espaço que se elevaram por terem sido vividos de forma plena e partilhados com pessoas extraordinárias.

Não são de bajulação gratuita e insípida estas palavras. Antes de exaltação. Por tudo e pelo nada que permitiram as chegadas e os encontros. Nunca fugazes. Nunca efémeros. E que o tivessem sido numa dimensão temporal, nunca o foram em essência. Em partilhas e cumplicidades. E tudo o que isso compreende. E compreende tanto.

Também não são de despedida estas palavras. Porque não me será possível dizer um “adeus” às pessoas que marcaram estes meses. Antes será um até já indefinido, mas com a certeza do reencontro. Amanhã ou daqui a meses. Mas será. Dizia noutro dia que a intensidade de determinados momentos é intransponível para qualquer tipo de palavras. It’s beyond words. E as pessoas que entraram nesta realidade intensa e irrepetível dispensaram a conquista de algo. Apenas estiveram, permaneceram. Permanecem e estão. Permanecemos e estamos. E tudo o que isto envolve – em primeira instância, as pessoas – é absolutamente singular. Ímpar.

O nosso universo, em abstracto, é constituído de transformações, já afirmava Lavoisier. Em que nada perco, mas também nada ganho, Mas transformo-me e transformo toda e qualquer variável da minha vida nesta circunstância. No balanço final, contrariando, acredito que ganho sempre. Existem as transformações, em que somos confrontados com questões que ora nos causam muitas vezes o pânico silenciado ora nos invadem, interiormente, de forma a nos testarem em aproximações de instintos de sobrevivência. Violento. Dispenso as afirmações do contrário.

As pessoas. Sempre permanecem poucas que decidem a cada dia ficar, duma forma mais ou menos subliminar. Decidem, traz-me o conforto. Prefiro poucas. Poucas, será relativo. Julgo. Antes prefiro escrever, as que querem estar. E as que eu sinto que estão. Correspondência, portanto. E não estando todas na mesma dimensão, estão, independentemente das vicissitudes que possam, física e espacialmente, separar. Não interessa. Não me interessa isso. A sério. Incluíram-se algumas nestes tempos. Ausentaram-se outras. As que chegaram. Essas. As que permitiram que cada dia neste mar agressivo de gente fosse cunhado com o conforto e aconchego que sempre amparam as quedas subjacentes às grandes decisões. Dispenso as nomeações, porque não faz sentido fazê-lo. E também dispenso o lugar comum de “as pessoas sabem quem são”. Porque para além do saberem, de facto, faço questão que o saibam, duma maneira mais ou menos subliminar. Não há teoremas ou equações para isto. Não há. A verdade é que, uma vez mais, confirmou-se o que já anteriormente defendi: inexistência de proporcionalidade directa entre tempo e solidez de sentimentos. E nisto vai uma densidade extrema e incrível.

Gosto de todos e de cada um dos fragmentos de tempo partilhados com cada uma das pessoas que habitou estes meses. Gosto de cada coisa que me ensinaram. Gosto de cada silêncio que tivemos. Gosto de cada cumplicidade estabelecida. Gosto de cada piada que fizemos nossa. Gosto de cada regresso a casa. Gosto de cada música que conheci. Gosto do puntting que fizemos, quais colegiais. Gosto de cada textura de óleo em tela que vimos. Gosto de cada tom de vermelho em tijolos erguidos no auge e epicentro dessa revolução. Gosto de cada abraço sentido. Gosto de cada deambular nestas ruas. Gosto do chá tomado no Mr. Scruff. Gosto de cada jantar partilhado. Gosto do elitismo académico de Oxford. Gosto de cada gargalhada insana. Gosto de cada filme na atmosfera do coronet. Gosto de presença dos que estão distantes. Gosto do meu bairro. E da minha Hereford Road. Gosto de todas as vezes que fui e regressei a Cambridge. Gosto do regresso à infância no Hamleys. Gosto da elegância da Regent. Gosto dos lugares descobertos em acasos. Gosto da industrialidade de Manchester. Gosto da ruralidade das quintas. Gosto da Guinness que tomámos em Dublin. Gosto da despretensão trendy do East Side. Gosto de me perder no Borough Market. Gosto do excesso de Camden. Gosto de cada conversa que tive. Gosto de cada gesto improvável. Gosto, sem ensaios, das pessoas que permitiram este móbil interminável de recordações.

Gosto, presente. Porque sê-lo-ão sempre em presente. Em qualquer tempo. Aqui. Vocês!

Obrigada!

Até já.

A

1 comentário:

Sílvia disse...

... e eu gosto muito de ti! Força e agarra a próxima aventura com muita energia! Abraço e até sempre no casal da mata, no algueirão, em sintra, em Lisboa, em Manchester, em Londres ou em qualquer outra parte do mundo!***